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CUESTA VERDE / Jornalismo de Verdade




sexta-feira, 13 de maio de 2022

Diário da Ilha de São Vicente – 08/05/2022 – MADRUGADA DO DIA DAS MÃES




​             Para lá da meia-noite, do dia 07 do mês de maio de 2022, que, como Sheldon Cooper salientaria, se tratava já do dia 08, se comemorava o “Dia das Mães”.





​             Entretanto, o que se viu, nessa madrugada, passou longe do fim de um mero “papai e mamãe”.
​             Até porque, para que isso se desse, carecia de alguém que tivesse a condição de ser uma figura materna.
​             Por isso, há de se dizer que o que ocorreu é fruto de um “24”.





​             Mas o “24” não é o veado no Jogo do Bicho?
​             É!
​             Em, também, é uma posição sexual, como o “69”.
​             Já que o número 24 representa um, de 02 pés, e outro, de 04 patas.
​             Lembrando o diálogo em que, como um bom “cagueta”, Iago relata a Brabâncio as atividades sexuais que Desdêmona, sua filha, perpetra com o mouro Otelo: “... sou o que fala que sua filha e o mouro / Estão, agora, compondo a besta de duas costas”.
​             “Besta de duas costas”.
​             Caralho!
​             Sim... Uma obra dramatúrgica de William Shakespeare.
​             Portanto, quando aquela sua amiga de “xana seca” te falar que gosta de coisas aculturadas, cite esse trecho de Otelo, uma peça teatral que foi lançada em 1622. E a convide para encenar a cena da besta de duas costas.





​             Ademais, o evento (de que se falava) ocorreu no Estradão, na Zona Noroeste, em Santos.
​             Uma via que traz à luz a música “Highway to Hell”, que o AC/DC lançou em 1979.





​             Que, aliás, poderia ser oficializada pela Prefeitura de Santos como o hino da Zona Noroeste.





​             O que não teria problema.
​             Dado que, na Zona Oeste, da Ilha de Manhattan, em Nova Iorque, há um bairro chamado “Hell’s Kitchen” – a “Cozinha do Inferno”.
​             E mais: se Santos tem o maior porto da América do Sul, Nova Iorque tem o maior porto da América do Norte; se, em Nova Iorque, o New York Yankees tem a maior torcida, em Santos, é a do Corinthians que manda.
​             Coincidências não faltam.
​             Só falta o Diabo.
​             Diabo, mouro e Jogo do Bicho (ou da Bicha), à parte...
​             Todavia, a história (de que ainda se fala) tem, em 02º plano, o terreno quase abandonado que fica em frente ao Bonde Boteco.





​             Uma gleba, praticamente, esquecida.
​             “Praticamente”, pois, extraoficialmente, ele é utilizado por usuários de substâncias ilícitas, estupradores e outros párias.
​             Sendo que dos “outros párias” se viu, sob a guarda do muro que cerca o perímetro, o bailar de duas cabeças. Dois cocurutos que, pelo jeito, eram de pessoas altas.
​             Pelo menos, se comprovou que uma era.
​             Já que, do outro lado da rua, indo da direita para a esquerda, apareceu um traveco enorme e retinto, com uma camisa curta casual feminina rosa e uma calcinha rosa-clara enfiada no meio da bunda.
​             - Eu vi isso? – indagou a garçonete, que, devido à atenção que dava a seu smartphone, o viu de relance.
​             Uma dúvida que, minutos depois, se dissipou. Dado que o traveco reapareceu. E, dessa vez, com um acréscimo de um short de brim e um gorro, com a forma da cabeça de um coelho. Indo a caminho do inferno. Pois ia da Avenida Nossa Senhora de Fátima para os confins da Zona Noroeste. Que, durante o percurso, passa a se chamar “Faroeste”.
​             - Se vir atrás de mim, na rua, eu pego um pedaço de pau e ponho para correr – disse a garçonete.
​             Ignorando o fato de que não corria perigo. Já que era o traveco que corria atrás de um pau.
​             - Sumiu! – com espanto, exclamou ela, que fora à porta, com o fim de se ater ao trânsito do observado.
​             Donde se deduziu que ele teria pulado o muro.
​             Contudo, se soube que o portão que dava aceso ao terreno, devido ao descuido, se fragilizou. E, por isso, foi empurrado, do lado direito, até que se abriu um vão entre ele e o muro. Por onde se pode entrar e sair, sem dilema.
​             Dilema que se viu em seguida.
​             Quando um motoboy munido de uma bolsa bag azul de entregador saiu do averno.





​             Conquanto que ele saiu da geena, mas o báratro não saiu dele. Indo em seu encalço. Já que, como um encosto, o traveco o seguia. E o fazia com alguns detalhes a menos. Que podem ser discriminados, ao se sublinhar o fato de que só a camisa o cobria.
​             Sem mais, eles foram para a pracinha, que fica em frente à Escola Municipal Doutor Samuel Augusto Leão de Moura. Onde, junto ao veículo dele, eles pareciam confabular.
​             Restando, apenas, à garçonete a tarefa de gerir a chopeira, e, aos manguaceiros a missão de não deixar que o chope esquentasse dentro da caneca de caveira.





​             Quando se ouviu uma freada!
​             E, diante da choperia, se viu uma moto parada. Com o motoqueiro tentando esconder o que lhe escapava do rosto pela viseira aberta do capacete fechado branco que usava. Enquanto o traveco segurava o guidão da moto com o ímpeto de quem retém um touro pelos chifres.





​             - Eu quero o meu dinheiro – falava o traveco.
​             O qual estava com a sua bunda grande, brilhante e preta virada para a choperia.
​             - Você comeu o meu cu; vai ter que pagar – com voz grossa, ele falava.
​             - Ele tem vergonha de mostrar a cara, mas não tem vergonha de traçar um traveco – alguém comentou.
​             - São 50 reais – o traveco resmungou.
​             - 50 reais?! – na voz de outra pessoa, com um audível nojo, ecoou.
​             - Além de traveco, é ladrão – um barbudo comentou. – Na minha época de gigolô, eu ganhei menos para comer coisa melhor.
​             Quando, sem muito que fazer, o motoqueiro conteve o constrangimento, olhou para os bêbados e pediu:
​             - Me ajuda, aqui.
​             - Ajuda, aí, gente – implorou o traveco, com medo, talvez, de que alguém se aliasse ao seu algoz.
​             Aí, veio outra questão: “Ajudar como?”
​             Ligar para a polícia e dizer que tem um traveco pelado brigando com um motoboy, no meio da rua?
​             No mínimo, a atendente anotaria o endereço, com o fim de que ninguém passasse perto.
​             Bem... Polícia, chope, pica e bunda, à parte...
​             Tudo acabou quando o motoqueiro fez o que devia ter feito depois de fazer o que não devia ter feito: enfiou a mão no bolso e saldou seu débito.
​             Por fim, o motoqueiro foi para o inferno, e o traveco desapareceu.
​             Reaparecendo, em seguida, com suas vestes.
​             Logo, ele calçou o gorro de coelho e uma calcinha preta.
​             Mas não era rosa?
​             Rosa-clara!
​             Não se conhecendo o destino dela.
​             Talvez, o motoqueiro a tenha levado, como uma forma de recordação.
​             Ou, quiçá, devido a sua situação econômica, ele a tenha lavado e presenteado a sua mãe com ela.
​             Não se sabe.
​             Só se tem ciência de que o traveco passou pelo vão, que separa o portão do muro, e se perdeu na escuridão.

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