Em “A Gaia Ciência”, no trecho intitulado de “329 – Lazer e Ociosidade”, Nietzsche, seu autor, disse que o “... frenesi do trabalho – o verdadeiro vício do novo mundo – já começa a contaminar a velha Europa, a torná-la selvagem ao propagar uma falta de espírito de todo singular. Agora, se tem vergonha do repouso...”. “Um homem de boa origem escondia seu trabalho, se a miséria o constrangia a fazer um. O escravo trabalhava esmagado pelo sentimento de fazer alguma coisa de desprezível: - o próprio ‘fazer’ já era algo de desprezível”.
Ou seja, trabalho é coisa de pobre.
“Mas não dizem que o ‘trabalho dignifica o homem’?”, pode perguntar um incauto.
Não! Só o lembra de que ele não tem onde cair morto.
E, nessa esteira, em 1986, lançado foi o filme alcunhado de “Curtindo a Vida Adoidado” – “Ferris Bueller’s Day Off”; o “Dia de Folga de Ferris Bueller”.
Todavia, a obra do diretor John Hughes tem no papel de protagonista o ator Matthew Broderick.
Matthew Broderick que com tanto empenho desempenhou a função que deu a impressão de que perdeu a paixão.
Tudo porque essa atuação ofuscou a que perpetrara, em 1985, como Phillipe Gaston, em “O Feitiço de Áquila” e a que fez, em 1989, ao dar vida a Adan McMullen, ao lado de Dustin Hoffman e do lendário Sean Connery, em “Negócios de Família”.
Ademais, o filme em questão trata da história de um sujeito que resolve cabular aula.
Para tal, tendo um simples e bom argumento: “Não me importa se você tem 50 ou 07 anos, todo mundo precisa de um dia de folga, de vez em quando. É um dia lindo. Como alguém espera que eu vá para a escola?”
Todavia, uma má interpretação do conceito da trama fez com que ela fosse levada à TV, como uma série – a famosa sitcom –, com Charlie Schlatter no papel principal. E com o que, hoje, é uma curiosidade: Jennifer Aniston, em início de carreira. Pois ela deu forma a Jeannie Bueller, a irmã de Ferris.
“Mas qual é o problema da série?”, pode indagar o incauto.
O fato de ser uma série.
E é por isso que ela teve apenas uma temporada de 13 episódios, entre os agostos de 1990 e 1991.
Posto que o mote do filme está em contar uma história que se passa em um dia. Um dia anacrônico. E a série teria que tornar o anacronismo crônico. Logo, em algum momento, Ferris teria que pegar a mochila e ir para escola, com o fim de sair da rotina.
Ademais, no meio do filme, Ferris Bueller entra em uma parada. Onde, sobre um carro alegórico, dubla a canção Twist and Shout – “Agite e Grite” –, na versão dos Beatles.
Com isso, comprovando a atemporalidade da sua música.
Aliás, dando desfecho a uma jogada de mentalismo.
Tudo porque as pessoas chegaram a esse momento do filme querendo ouvir os Beatles; e sem saber por quê.
Porque a Fab Four foi citada no começo da película. Quando Ferris diz que: “Uma pessoa não deveria acreditar em ‘ismo’”.
Aqui se abrindo uma lacuna para falar que ideologia só serve para quem não sabe pensar. E que, por falta de ideias próprias, se escoram nas dos outros.
Sem mais, ele continua: “Ela deveria acreditar em si mesma. John Lennon disse isso em seu 01º álbum solo: ‘Eu não acredito nos Beatles / Apenas creio em mim’”.
Contudo, os Beatles não precisam que alguém neles creia. Que os ouçam, apenas.
No caso, se atendo à energia que a voz de John Lennon transmite em Twist and Shout.
Twist and Shout que é de autoria de Phil Medley e Bert Russell. E cuja 01ª gravação foi feita pelo Top Notes, em 1960. Sendo que 02ª foi efetuada pelo Isley Brothers, em 1962.
Em 1963, alcançando sua 03ª de definitiva versão ao ser lançada no álbum Please Please Me, o 01º dos Beatles.
Ademais, qualquer exame de DNA constataria que Twist and Shout é a filha bastarda de La Bamba.
O que alguns tentam contemporizar com o papo de que entre ambas há uma progressão de acordes.
Mas que, na prática, se trata de um plágio.
Dado que La Bamba é uma música de domínio público; órfã de mãe e de pai.
Por tanto, sem quem reivindique suas cifras.
E ascende do folclore mexicano.
Ora que é muito tocada em festa de casamento.
Com a sua 01ª gravação sendo ocorrendo em 1939. No álbum de Alvaro Hernández Ortiz, o vulgo El Jarocho.
“Jarocho” que é o qualificativo do nativo de Veracruz, uma cidade do México. Onde, provavelmente, nasceu La Bamba. Pois o seu ritmo é o son jarocho.
Com o detalhe de que “jarocho” é o termo que discrimina um bruto. Um caipira. Visto que é oriundo do árabe hispânico “harrúg”, que significa "irado".
Ademais, sua principal gravação foi feita por Ritchie Valens, em 1958.
Mas onde é que se deu o cruzamento de guacamole e tequila com fish and fries?
Para se chegar a essa resposta, deve-se entender que o rock é um subgênero do country. Que, por sua vez, uma vertente é da música celta, que os irlandeses levaram para o oeste norte-americano.
Sendo que, durante essa metamorfose, ocorreu uma considerável perda de informação. E, em decorrência disso, o rock’n’roll se reduziu a 03 acordes – Ré maior, Lá maior e Mi maior.
O que faz com que ele não se sustente sozinho.
Em função disso, escorando-se (ou, como se venturou falar, buscando influência) em outros ritmos. Assimilando, assim, o exotismo da música indiana, a complexidade, incluindo a chatice, da música dita erudita e a lubricidade da música latina.
Tanto que a canção (I Can’t Get No) Satisfaction, que os Rolling Stones gravaram no álbum Out of Our Heads, em 1964, é um chá-chá-chá disfarçado de rock.
O que foi detectado por Johnny Rivers, que, na 10ª faixa do álbum At The Whisky a Go Go, fez um medley de La Bamba e Twist and Shout.
Ademais, em 03 de outubro de 2018, no conto “As Garotas da Casa ao Lado*”, que publicado foi no Mochileiro Místico, a concupiscência mencionada foi explorada na (per) versão de La Bamba que ganhou a alcunha de “La Bunda”.
terça-feira, 29 de junho de 2021
quarta-feira, 2 de junho de 2021
Coluna SNACK BAR - O Lado B da Humanidade: PERDIDA NA ESTRADA
(De Mateusz Duarte & Renato Pop; Voz e Violão, Angélica Vanessa)
Você deu mancada
E fiquei danada
Perdida na estrada
Com uma aliança
Toda enferrujada
Pedindo carona
Com dor no coração
Pra qualquer caminhão
Você deu mancada
E fiquei danada
Perdida na estrada
Igual à cadela
Que foi rejeitada
Pedindo carona
Com dor no coração
Pra qualquer caminhão
Eu que dei mancada
E fiquei danada
Perdida na estrada
Pelos motoristas
Sendo desprezada
Lá no acostamento
No breu da escuridão
Que nem assombração
Eu que dei mancada
E fiquei danada
Perdida na estrada
Vestindo o vestido
Com que me trajava
No meu casamento
No breu da escuridão
Que nem assombração
domingo, 30 de maio de 2021
quarta-feira, 26 de maio de 2021
Coluna SNACK BAR - O Lado B da Humanidade: A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER
Em 1988, lançado foi “A Insustentável Leveza do Ser”. Uma adaptação cinematográfica do livro homônimo que o tcheco Milan Kundera, seu autor, publicara 04 anos antes. Todavia, a película, conduzida pelo norte-americano Philip Kaufman, tem a sua duração, de mais de duas horas, amainada por Juliette Binoche, no frescor dos seus 23 anos de idade.
Mas, durante a história, um detalhe levanta a orelha do espectador mais atento: a melodia de “Hey, Jude”.
Sim, a inconfundível música que carrega a assinatura sonora de Paul McCartney. Dado que John Lennon só rubricou a partitura.
Só que cantada no idioma tcheco.
Cantada por Marta Kubišová.
Que nasceu no 01º dia do mês de novembro de 1942, em České Budějovice, na (então) Tchecoslováquia – a, hoje, República Tcheca.
E que, no começo dos anos 1960, início a sua carreira musical deu.
Ganhando notoriedade nacional em 1966.
Quando participou da 01ª edição do “Bratislavská Lyra” – uma espécie de Festival da MPT (Música Popular Tcheca). Em que, em um dueto com Helena Vondráčokva, defendeu a canção “Oh, Baby, Baby”, de autoria de Bohuslav Ondráček e Jan Schneider. Que ficou em 02º lugar.
Com a música “Mám Rozprávkový Dom” – “Eu Tenho Uma Casa de Fadas” –, que foi composta por Varoslav Matušik e Eliška Jelínková, sob a interpretação de Karel Gott, atingindo o 01º lugar.
01º posto, aliás, que Marta Kubišová alcançou um 1968, com a música “Cesta” – “Caminho” -, de Jindřich Brabec e Petr Rada.
De volta a 1966...
O sucesso amealhado com o festival rendeu a Marta o convite, por parte do diretor Jan Neměc, para participar do filme “Mártires do Amor” – “Mučedníci Lásky” –, um clássico do “Cinema Verdade” – o “Cinéma Vérité”.
Cinema Verdade que é uma narrativa de origem francesa que nada mais é do que filmar uma ficção com linguagem de documentário.
Como Woody Allen fez em Zelig, de 1988.
Ademais, Marta Kubišová continuou atuando – tanto no cinema como na música – e, em 1969, lançou um compacto simples, que tinha ‘Hej, Jude’, no lado A, e “ Všechny Bolesti Utiši Láska” – “Toda Dor Será Aliviada Pelo Amor, no lado B.
Ora que essa versão da obra dos Beatles explicita o malabarismo poético que tem de ser perpetrado para que se encaixe o significado de uma letra na métrica de uma determinada melodia.
Que fica evidente logo no 01º verso.
O qual deve ser examinado à luz do original, em inglês, da versão tcheca e da brasileira, que foi feita por Rossini Pinto e imortalizada por Kiko Zambianchi no álbum “Era das Flores”, de 1989.
Em português: “Hey, Jude, não fique assim”.
Tcheco: “Hej, Jude, co dá ti pláč” – “Hey, Jude, o que te faz chorar”.
E o original: “Hey, Jude, don’t make it bad” – “Hey, Jude, não piore as coisas”.
Logo, as 03 primeiras sílabas – “Hej”, “Ju” e “de” – são pronunciadas em acordo com as originais.
Depois, na 04ª – “co” (cuja pronúncia é “so”) –, se mantém o som fechado da letra “o”, ao contrário da brasileira, que busca uma paridade nasal com a original – “não” e “don’t”.
A 05ª – “dá” –, só mantém a tonicidade da inglesa. Uma tonicidade que, na brasileira, foi acrescida de uma aproximação sonora por meio da letra “i” – já que “ma” (que se articula como “mei) ecoa em “fi”.









