Em 23 de julho de 2022, também conhecido como o Dia do Batman, o roteiro da noite estava traçado: subir em um ônibus – 136 ou 193 –, no Estradão, descer nas imediações do Shopping Praiamar, caminhar em direção ao Sesc Santos, cruzar a Praça Caio Ribeiro Moraes e Silva e entrar no Ruskin Arms – aquele da crônica alcunhada de “Casa Pública” –, com o fim de tirar o excesso de gordura do fígado com um pouco de álcool.
Ademais, a coisa começou em um ponto de ônibus que situado está na pracinha que fica em frente à Escola Municipal Doutor Samuel Augusto Leão de Moura – que foi mencionada no texto que se chama “Madrugada do Dia das Mães”.
Todavia, depois de uma longa espera, o ônibus, com o número 193 (ou, como alguns preferem, 1, 9 e 3), chegou. Sendo conduzido por uma velhinha, que era a cara da Palmirinha.
Até aí, tudo bem.
Contudo, a “veinha” dirigia devagar.
Lembrando uma icônica cena do filme “Sem Licença para Dirigir”, que dirigido por Greg Beeman foi. Quando Les – vivido por Corey Haim –, a fim de não chamar a atenção da polícia, devido ao fato de guiar sem a CNH norte-americana, guiava lentamente. Bem lentamente. Mentalente...
Ops!
Caramba, deu um sono, agora.
E, tal como na película, o ônibus foi ultrapassado por todo mundo: um carro velho, uma bicicleta, cadeira de rodas não motorizada, um caminhão de lixo e até por um cachorro, que, ainda, parou em um poste e foi embora.
O que dava a impressão de que a coroa saíra do estacionamento quando era adolescente e regressaria na véspera do seu velório.
Por falar no assunto, próximo ao Cemitério da Filosofia, a “veinha” parou, em resposta ao aceno de alguém. E “contra-acenou”, pedindo celeridade.
Algo irônico.
Um contrassenso.
Em todo caso, ela abriu a porta para dois indivíduos, terrivelmente, embriagados.
- Vai para o cais? – com dificuldade, um deles perguntou.
- Cais, onde? – indagou a velhota.
- Não sei. Que caminho você faz?
- Vai para a rodoviária e, depois, eu não sei. É a primeira vez que faço essa linha.
Então, como ninguém conhecia o seu destino, ambos concluíram que iriam para o mesmo lugar. E, por isso, os bêbados embarcaram.
Daí para diante, a coisa não mudou muito. Dado que a “veinha” ia se orientando pelas placas, pontos de ônibus e as informações que estavam pintadas no asfalto.
Quando, então, o veículo entrou na Rua Martim Affonso, e duas pessoas puxaram a cordinha, com o fim de descer.
Porém a anciã lhes indagou:
- Onde fica o ponto? Não conheço.
Recebendo um “Logo, ali” como resposta.
Doravante, em algum lugar, mais para frente, os bebuns também desceram. E, pelo que se pôde ver, deitaram na calçada e dormiram apaixonados.
Como diz um Velho Deitado Chinês: “Cu de bêbado não tem dono”.
E como diz outro Velho Deitado Chinês: “Lugar que não tem barraco é de quem passa perto”.
Ou seja, se alguém estiver com a “barraquinha” armada, tudo (tudo, mesmo) pode acontecer.
Por fim, se alcançou o Shopping Praiamar.
Consequentemente, se caminhou em direção ao Sesc, atravessou a Praça Caio Ribeiro Moraes e Silva e entrou no Pub.
Ainda a tempo de apreciar uma parte do show do cantor Nestor Briquet.
Nestor Briquet que, então, cantava “Every Breath You Take”, o clássico do Police, que foi escrito pelo Sting.
E, no correr na noite, o Senhor Briquet fez o que todo bom cantor dever fazer: cantar a música dos outros com a sua assinatura. Mas sem perverter a mesma.
Ao contrário, por exemplo, do que a banda Blues Beatles insiste em fazer. Ora que, ao término de um belo show...
Ressaltando que, até o desfecho da sua apresentação, ela é uma das melhores bandas de tributo aos Beatles da praça.
Porém, os seus membros parecem que não vão dormir sem, antes, estragar tudo.
Cara, quer gorar a sua vida?
Vai comer mulher feia.
Mas, não.
Esse pessoal faz uma versão ridícula de Yesterday que, se ninguém disser que se trata da criação de Paul McCartney, se pode pensar que é alguém que está sofrendo no banheiro.
Ademais, antes de ir para a “patente”, tem que se preparar para ela.
O que, no caso, se fez com um paint de Guinness e um de Ruskin Weiss.
Weiss que, aliás, fora servida em um weiss glass personalizado com a logomarca da casa e parecido com o Troféu da Copa do Mundo da FIFA.
Com o advento de um Cachopo.
Cachopo?
Um empanado, oriundo das Astúrias, em que 02 filés de vitela sanduicham algumas fatias de queijo Afuega’l Pitu e presunto serrano.
E que, no Pub, é feito com baby beef e provolone.
Mais um Ruskin IPA e um White Russian, para finalizar.
Sim, a bebida do Cara.
A qual, como ocorre na maioria dos bares e, até, em casa, careceu de uma improvisação para ser executada. Já que, por falta do licor de café...
Um licor que, devido à dificuldade de encontrá-lo, dá a impressão de que não é apreciado por algum membro do Supremo Tribunal Federal.
Ademais, ele foi substituído pelo chocolate.
Não alcançando, assim, o sabor original.
Mas dando origem a uma nova versão da bebida.
Que poderia se chamar de White Russian da Lola.
A Lola Melnick?
Sim! Uma russa gostosa e abrasileirada.
Ademais, durante a apresentação, se deduziu que o rock não é uma música para jovens. E sim, para quem não sabe que irá envelhecer.
O que faz com que o rock se equipare com o falso axioma do vinho: “Quanto mais velho, melhor”.
Uma falácia.
Dado que, quando caduca, ele vira vinagre.
Quando ao rock: ele se transforma em um hino.
Tanto que, quando se pareia o antigo com o contemporâneo, o último se torna tão irrelevante quanto o silêncio.
Fazendo com que dentre as canções que foram interpretadas, como “Comes You Are”, composta por Kurt Cobain, Dave Grohl e Krist Novoselic, do Nirvana, e “Jeremy”, de autoria de Jeff Ament, do “Pijama”, se sinta o peso de uma carga emocional que não se percebia na época em que apareceram na programação da MTV.
“Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-o e o deu aos seus discípulos dizendo: ‘Tomai e comei, isto é o meu corpo’. Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-o dizendo: ‘Bebei dele todos, porque isto é o meu sangue, sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados’” – Mateus 26:26-28.Todavia, essa metáfora antropofágica teve início antes do ponto estabelecido pelo calendário gregoriano como o princípio da era cristã. E se mistura com esse período por causa de Jerusalém. “Jeru” “Salém”. Ou “Yerushalaim” – em hebraico. Que significa “Reino da Paz”. Visto que “Shalaim” é o mesmo que “Shalom”.
Mas onde nasce a relação entre antropofagia, cristianismo e Jerusalém?
Bem, por volta de 1800 a.C, Elasar, rei de Codorlaomor, em parceria com outros reis, tomou de assalto tanto Sodoma como Gomorra. E, além da pilhagem, levou os habitantes dessas cidades como escravos. Sendo que entre os degredados estava Lot. Lot que vivia em Sodoma e era sobrinho de Abrão – o patrono dos israelitas.
Logo, Abrão travou uma guerra contra Elasar e venceu-o. E assim resgatou tanto Lot como os outros e os bens roubados.
Ao regressar, a caminho de Hebron – sua cidade –, Abrão parou no Vale de Savé para receber as salvas de Bora, rei de Sodoma, e de Melquisedeque, rei de Salém.
Melquisedeque, todavia, não é um nome. E sim, um posto. Posto que a acepção de “Melqui” é “Regente” e “Sedeque” é “Justiça”. Logo, é aquele que determina o que é justo. Já que naquela época o governante também era o juiz de seu povo. Impondo o poder por meio da busca do equilíbrio. Da aplicação de uma harmonia que, em alguns casos, recebia diretamente da Divindade. E Melquisedeque era o “Sacerdote do Deus Altíssimo”. O responsável pelo ritual do Sangreal. Pois a palavra “sacerdote” vem de “sacerdos”. Que é uma junção do termo em latim “sacer”, “sagrado”, com o vocábulo grego “dot”, que significa “oferta”. Oferta que se fazia num rito em que se imolava um Rei Sacrifical. Depois, se arrancava o seu coração e com ele enchia de sangue um cálice. Um Graal do qual bebiam os membros da tribo. Com isso, criando um elo consangüíneo que garantiria o renascimento do mesmo entre o seu povo. Trazendo junto uma habilidade, aprendida com a Divindade, para desenvolver uma tecnologia capaz de promover o equilíbrio e um consequente avanço social.
Então – segundo Gênesis 14:18 – Melquisedeque fez uma alegoria do ritual ao entregar o pão e o vinho a Abrão. Passando a tradição do Graal a um novo Rei. Sendo que, talvez por um presságio, ele entendia que a vitória de Abrão na peleja era um desígnio divino. E, em retribuição – Gênesis 14:20 –, o novo Rei deu um décimo dos seus despojos a Melquisedeque. Assim criando o conceito da gratidão por meio do dízimo. Já que “dízimo” vem do latim “decimu” e equivale à décima parte.
O Salmo 109, do Rei Davi, intitulado como “O Messias, Rei e Sacerdote”, dá continuidade a essa história. Porque trata da “Ordem de Melquisedeque”.
Mas a Ordem não foi passada a Abrão?
Sim. E, conseqüentemente, usufruída pelo cristianismo. Cristianismo que foi idealizado sobre os conceitos do Sangreal. Já que a figura de Jesus foi criada como sendo o filho de Deus. Com isso, ocupando o cargo de Messias. Assim dando uma identidade definitiva a essa condição. Sendo que a palavra “Messias” vem do hebraico “Mashiach” e significa “Ungido”. E corresponde a todo aquele que traz uma tecnologia em benefício da humanidade. Como Edward Jenner, que inventou a vacina, em 1789, Santos Dumont, que inventou o avião, em 1906, ou Philo Fansworth, que inventou a televisão, em 1927.
Se assim é, quem é que teve a idéia de oficializar Jesus como Messias? E o que é que tem a ver Messias com Melquisedeque?
Bem, Paulo, mais conhecido como São Paulo, foi quem criou o imbróglio. Visto que, a fim de dar uma direção à evolução do cristianismo, ele, com suas cartas, passou por cima do que Mateus, Marcos, Lucas e João – os idealizadores da seita – tinham escrito. E com isso criou-se uma contradita entre o que foi dito que Cristo disse nos quatro evangelhos e o que se disse que o dito teria dito nas epístolas de Paulo.
Não importa! Do dito e o desdito só sobrou o dízimo. Tudo, pois Paulo se aproveitou de três lacunas deixadas na história de Melquisedeque. Como é relatado em Hebreus 7:3. Primeiro: o fato da personagem não ter uma genealogia. Em segundo: não ter registro de um início ou fim. Suscitando uma narrativa ambígua, em terceiro. Logo, o design do que, com certos retoques, se tem hoje como o “Papa”. E assim, com uma conversa que só tem relevância para os adeptos do cristianismo, Paulo disse que a tribo de Levi fora destituída do seu sacerdócio. A tribo de Levi que, das 12 tribos de Israel, era incumbida, por Deus, da manutenção da Arca da Aliança e, consequentemente, de todos os rituais. E, como tal, ela recebia o dízimo pelo serviço prestado. Dízimo que então mudou de credor. Já que Jesus, na condição de Messias perpétuo, detinha um saber ímpar. Uma exclusividade que, no repasse para os demais, fazia dele o “sacerdote-mor”. O que, somado ao fato de que ele era de outra tribo (da de Judá) também lhe excluía de qualquer compromisso com a lei vigente. E assim, foi instituído um novo programa de governo. Que consistia na abolição do sacrifício. Pois, segundo o que se disse que foi dito, o sacrifício então praticado não levou o povo a uma suposta salvação. E, além disso, a morte de Cristo era o sacrifício derradeiro. Pelo pecado do mundo. Assim, sujeitando todo aquele que pecasse, deste então, a uma autoflagelação psicológica em busca da salvação. Pois este não imitou a Cristo. Que era um ser perfeito e não tinha pecado. Posto que ao seu currículo não se acrescentou o caso dele ter partido para a pancadaria com os vendilhões do templo, ter amaldiçoado uma figueira e, praticamente, ter se suicidado ao atormentar tanto os sacerdotes judeus como os romanos a ponto de provocar a sua própria crucificação.
Contudo, entrando pelas brechas que Paulo nessa história explicitou, outras correntes místicas mantêm, a seu modo, em vigor a Ordem de Melquisedeque.