quarta-feira, 4 de maio de 2016

Coluna Manuel Maria Barbosa du Bocage: A IGREJA DA MATRIZ

            pra muitas léguas do interior
            Onde o Sol se esconde
            Quando quer se pôr
            E nem a bússola responde
            Quando se precisa de orientação
            Lá pros lados de Santa Branca
            Numa cidade de casas tão sutis
            Que no céu só emboca
            A Igreja da Matriz
            Que, pro perdido, é a salvação
            Dá tanto pecado
            Tanta mulher falada
            Tanto nego encrespado
            Tanta coisa entortada
            Que o Padre se injuriou:
            “Para com isso!
            Isso não é brincadeira.
            Essa igreja tá parecendo cortiço.”
            E com ideia de flecha certeira
            Pra praia uma fuga planejou
            Já que por lá chegou um turista
            Que era do Padre o primo
            Um cabra paulista
            Metido a grã-fino
            Que pra quebrar o galho servia
            E que foi convidado pra Igreja da Matriz
            Com a seguinte ordem:
            “Não deixa passar um infeliz,
            Que vai virar desordem.”
            E o dito topou cheio de valentia
            Que noutro dia
            Antes do café coado
            O Padre, em cantoria
            Com mala e tudo
            Foi passar uns dias no litoral
            E o primo, dentro da batina
            Aceso de cerveja
            Fez cara de muquirana
            E foi pra igreja
            Com panca de maioral
            Ah, e com o Padre substituto
            Que o outro adoeceu
            O povo que era matuto
            À igreja compareceu
            Cheio dos “observatório”
            E tinha patrão, patroa
            Menina, matrona
            Nego atento e nego à-toa
            Tudo em fila indiana
            Na porta do confessionário
            Onde, meio sem alegria
            O Padreco se acomodou
            E do lado de lá da gelosia
            Um caboclo se achegou
            Todo cheio de “pandareco”
            Falando de forma indignada:
            “Padre! Minha ‘muié’ não toma jeito.
            Só não dormiu, ainda,
            Com ‘muié’ e criança de peito.”
            Que “bem feito”, disse o Padreco
            “Com seu bafo de onça,
            Não há cristão que ‘guenta’.”
            E decretou, como sentença
            Arranjar uma bala de menta
            E rezar até gastar a goela
            Que o caboclo se doeu:
            “Seu Padre! Ela que peca,
            E quem paga sou eu?”
            E o Padreco devolveu, de peteca:
            “Ué, você não se confessou por ela?”
            E aí, quando o Padre voltou
            A igreja tava que era uma beleza
            Nem um pecador restou
            E o Padre agradeceu a limpeza
            Com uma benção e uma grana graúda
            Só que uns meses depois
            Um problema sério
            Pro Padre, na igreja, se expôs
            Pois na porta do confessionário
            Tinha uma fila de moça barriguda
            Das quais, pra primeira perguntou
            Ao atendê-la em tom de prece:
            “Cadê o pai do rebento?”
            E a moça, sem muito pra dizer, disse:
            “Não tem pai o neném.”
            E o Padre se espantou:
            “Mas de joelhos
            O outro Padre não te colocou?”
            “Sim”, disse ela, “me colocou de joelhos
            E noutras posições, também.”



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